domingo, 28 de fevereiro de 2016

Tratamentos não tão seguros

Por Ícaro Salerno Fernandes

Por vezes vamos a um consultório médico e nos é prescrito um tratamento a ser seguido. Como confiar na segurança daquele medicamento? Como avaliar a chance obter uma melhora com ele ou não? Muitos dos problemas que nos impossibilitam de tomar boas decisões no cuidado em saúde ocorrem por pensarmos dicotomicamente: um medicamento/tratamento ou faz bem ou faz mal para um doente. Entretanto, quando se tratam de seres vivos, raramente temos essa separação tão estrita. Dessa forma, convém modularmos a maneira de pensar os tratamentos em saúde: em vez de afirmar “isso funciona”, “isso não funciona”, é preciso pensar em graus e variações das chances de melhora, dos riscos do tratamento e dos riscos dos efeitos colaterais tanto advindos do uso do remédio ou os padecimentos decorrentes em não usá-lo.
Quando um medicamento novo é lançado, costuma-se informar a porcentagem de benefício da atuação daquele medicamento em determinada doença (e.g. comprimidos que prometem prevenir a ocorrência de eventos cardíacos no futuro). Entretanto, quase nunca são anunciadas as nuances quanto ao real benefício do tratamento frente a outras iniciativas como mudança de hábitos, por exemplo. Dessa forma, omite-se do público e mesmo de alguns profissionais médicos, a verdadeira faceta do tratamento farmacológico, especialmente para condições crônicas: nunca 100% dos usuários terão benefício mesmo se a droga for adequada e eficiente.


Entendendo o Risco Relativo e o Risco Absoluto


Exemplo: imagine que você entrou no site da American Heart Association (AHA) e de posse de seus exames de sangue, valor de peso, altura etc., preencheu o formulário que calcula o risco de sofrer um ataque cardíaco em 1 ano. Digamos que o programa calculou probabilidade 50% de ocorrer um ataque cardíaco dentro dos próximos 365 dias. Eis que chega a suas mãos um anúncio de um medicamento que reduz esse risco para 25%. Uma vez que a probabilidade foi de 50% para 25%, o medicamento diminuiu seu risco de evento cardiovascular pela metade. Ótimo remédio, não é? Com certeza!
 Bom, digamos agora que outra calculadora de risco do mesmo tipo do AHA diz que você possui probabilidade de ter câncer no cérebro de 0,5% no próximo ano. Da mesma forma, você descobre que há uma nova droga que diminui esse risco para 0,25%. Novamente, a terapia medicamentosa diminuiria pela metade seu risco de ter o câncer. O que você acharia desse remédio?
 Nos dois casos, o medicamento diminui pela metade seu risco de morrer. A essa redução damos o nome de Risco Relativo (RR):









Exemplo do Ataque Cardíaco:





Exemplo do Câncer no Cérebro:







Se as drogas forem baratas ou até de graça, qualquer uma das duas situações acima de redução de riscos valeria a pena, certo? Claro!
 Agora, se o custo delas não for baixo ou há algum efeito colateral importante, os dois exemplos são equivalentes? Claro que não!
 Ora, o Risco Antigo de ter um evento cardíaco era de 50% (50 a cada 100 pessoas morrem), enquanto que o Risco Antigo de desenvolver o câncer no cérebro, apenas 0,5% (5 a cada 1000 pessoas morrem). Cenários totalmente diferentes, especialmente se uma das drogas for perigosa ou cara. Este exemplo mostra o quanto esse valor de Risco Relativo (RR) é de certa maneira inútil. No entanto, esse é o valor mais comumente reportado em anúncios sobre novos medicamentos ou tratamentos. E o motivo é claro: quase sempre o RR atribui um efeito mais impressionante ao novo tratamento divulgado. O que deveria nos preocupar na realidade é outra medida: Risco Absoluto (RA ou AR em inglês). RA, como pode ser observado na expressão a seguir, é de fato a redução de risco que o suposto tratamento, quando usado adequadamente, confere ao paciente:





Exemplo do Ataque Cardíaco:






Exemplo do Câncer no Cérebro:





Valores totalmente diferentes! Ou seja, com um remédio temos uma redução de risco de 25% a partir de seu uso, enquanto que no outro, 0,25%, mesmo ambos tendo o mesmo valor de RR (50%). Ainda assim, normalmente a divulgação  para informar os médicos, para popularizar e vender tais medicamentos se faz (injustamente) através do valor de RR e não de RA.


Entendendo o Número Necessário para Tratar (NNT) e o Número Necessário para causar Danos (NND)


Um valor interessante na perspectiva da pessoa sujeita a intervenção, ou seja, o paciente a tomar o medicamento, é conhecido como Número Necessário para Tratar (NNT). Através do NNT, avaliamos quantos pacientes precisamos dar o medicamento ou realizar a intervenção para que 1 se beneficie. Esse valor é calculado fazendo o inverso do valor de RA:











Exemplo do Ataque Cardíaco:






Exemplo do Câncer no Cérebro: 








Interpretando esses valores, para o caso do medicamento que previne ataque cardíaco, teremos de tratar corretamente 4 pacientes para que 1 receba o benefício de evitar o evento cardíaco. Ou seja, os outros 3 pacientes não recebem NENHUM benefício com esse tratamento. Interessante observar que essa droga, mesmo com 3 pessoas não se beneficiando em nada pelo seu uso, tem valor de NNT muito menor que a média dos medicamentos de verdade. Normalmente os NNTs dos melhores medicamentos que temos atualmente, quando comparados com placebo, são maiores. Significando que sempre estamos tratando muitos, para poucos receberem o benefício. Agora, e o caso da droga para prevenir câncer no cérebro? Precisamos tratar 400 para que 1 receba o benefício. 399 pessoas não se beneficiam em nada! O leitor pode até achar justo ambos os valores de benefício, afinal de contas o desfecho – ataque cardíaco ou câncer no cérebro nos próximos 365 dias – nos dois casos são bem dramáticos, podendo levar os pacientes a morte. Entretanto, esse raciocínio só seria válido se não houvesse nenhum efeito colateral. Mas como sabemos, TODOS medicamentos tem alguma reação adversa, isso sem falar do seu custo. Foi pensando em quantificar o dano de um efeito colateral que se criou a variável Número Necessário para causar Dano (NND, ou NNH em inglês).
 A ideia é bem semelhante, o NND explicita a quantidade de pessoas tratadas que geram 1 efeito danoso. Exemplo: um estudo avaliou um grupo de pessoas sujeitas a uma infecção bacteriana. Quando avaliados os efeitos colaterais, os pesquisadores observaram que 20% dos pacientes que tomaram o antibiótico, tiveram diarreia. Em contra partida, dos que não tomaram o medicamento, 10% apenas tiveram diarreia. Se observarmos novamente o RR para essa droga, teremos:





, ou seja, seu risco relativo de desenvolver uma diarreia como efeito colateral dobra.


No entanto, observando o valor de Risco Absoluto, teremos:
Da mesma maneira, podemos calcular o NND:






, ou seja, a cada 10 pacientes que tratamos com o antibiótico, 1 terá diarreia.


Para exemplificar com valores reais de NNT, vamos analisar o índice para o uso de Aspirina na prevenção de um primeiro evento cardioisquêmico (ataque cardíaco) ou encefaloisquêmico (AVE). Em uma meta-análise publicada na revista Lancet em 2009, correspondendo ao melhor estudo sobre o assunto até o momento, foram analisados pacientes que nunca tiveram eventos cardiovasculares, mas que possuíam pelo menos um fator de risco para doença cardíaca como hipertensão arterial sistêmica. Chegaram a conclusão que, no caso de uso de aspirina em pacientes que nunca tiveram eventos vasculares prévios, o NNT=1667. Isso mesmo: para 1 única pessoa se beneficiar com a prevenção do evento cardiovascular, este que se beneficiou e mais 1666 indivíduos deverão tomar 1 comprimido de aspirina por dia durante 1 ano inteiro! Pensando nesse valor de benefício, qual o efeito colateral mais evidente do uso da aspirina? Sangramentos espontâneos! Dessa maneira, a pergunta que fica é: vale a pena tratar tantas pessoas que nunca tiveram qualquer evento vascular? É provável que tendo este valor de NNT para aspirina em mente, uma pessoa decida discutir melhor com seu médico se de fato vale a pena iniciar a terapêutica com o tal fármaco.
Uma ponderação importante é na verdade um alerta: quando estiverem interessados em ler um estudo na íntegra, atentem sempre para o escopo de pacientes do estudo. Este tipo de informação costuma ser encontrada na parte que o autor do trabalho descreve a Metodologia (sabidamente a parte mais importante de todo relato de pesquisa). No caso do nosso artigo do The Lancet, apesar de terem pelo menos um fator de risco para doença cardíaca (por exemplo, Hipertesão Arterial Sistêmica), escolheram APENAS aqueles que não tiveram nenhum evento cardíaco prévio. Não torçam o nariz quando virem prescrições de aspirina para familiares, eles podem ter tido algum evento cardiovascular prévio e você nunca soube. Para este escopo de pacientes com evento cardiovascular comprovado, que foram hospitalizados por tal motivo, o estudo ISIS-2 chegou a um NNT de 42 na prevenção de morte por Infarto Agudo do Miocárdio um mês após internação. Significando que, para 41 pacientes que tomaram diariamente e não se beneficiam em nada, apenas 1 tem o efeito de prevenção esperado no intervalo de tempo considerado no estudo (ISIS-2).
Através desses índices (RA, RR, NNT, NND) e dos exemplos citados, pode-se concluir (i) tratamos prescritos compreendem, de partida, uma margem de pessoas que não serão beneficiadas com ele, notadamente em doenças crônicas, quanto mais a alteração apresentada por um paciente for próxima do limite de definição de normalidade, menor será o benefício; (ii) produtores de medicamentos, ou mesmo pesquisadores mal intencionados podem informar um risco relativo que impressiona mais que o risco absoluto de fato, o que eventualmente leva a consequências como o investimento de grandes quantias de dinheiro em tratamentos pouco efetivos ou mesmo a efeitos colaterais graves.
 Vale a pena pensar sobre as possibilidades de tratamento existentes e discuti-las com o profissional médico. Peça para que ele mostre as possibilidades existentes a você e quais os riscos dos vários tratamentos. Assim, você terá participação na decisão de seu tratamento e poderá exercer uma autonomia consciente e esclarecida sobre seu corpo e sua saúde.

Referências
  1. Antithrombotic Trialists’ (ATT) Collaboration. (2009). Aspirin in the primary and secondary prevention of vascular disease: collaborative meta-analysis of individual participant data from randomised trials. Lancet, 373(9678), 1849–1860.
  2. ISIS-2 (Second international study of infarct survival) Collaborative group, randomised trial of intravenous streptokinase, oral aspirin, both, or neither among 17.187 cases of suspected acute myocardial infarction: ISIS-2, The Lancet, Volume 332, Issue 8607, 13 August 1988, Pages 349-360, ISSN 0140-6736.
"Este texto de divulgação foi escrito por Ícaro Salerno Fernandes, bacharel em Física e estudante de medicina, e publicado neste blog em março de 2016. Copiar ou reproduzir parte ou o todo do texto sem citar a fonte original constitui plágio e pode ser punido por lei". 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Alimentação baseada em ciências

Por Ícaro Salerno Fernandes

Uma questão que tem feito parte de discussões importantes tanto na academia quanto em saúde pública: o aumento da incidência de Diabetes Mellitus (DM), bem como aumento de morbidades e óbitos relacionados a esta doença (Gráfico 1). No gráfico 1, obtido através do sistema público do DATASUS, observa-se que mesmo tendo feito as correções para o crescimento populacional - ou seja, o valor bruto de óbitos foi dividido pelo número de indivíduos na população - houve um crescimento considerável do número de óbitos por 100.000 habitantes. Apesar de ter feito apenas para o Brasil, as discussões em todo mundo quanto o tipo de alimentação e o crescimento de DM, sugere que trata-se de uma questão muito relevante a todos os países que adotam o que se chama de “Western Diet”, tradução literal "Dieta do Ocidente", sendo a dieta mais difundida nos países com grandes aglomerações urbanas.


A Síndrome Metabólica (SM) é outra, digamos, comorbidade atribuída a alimentação adotada por grande parte da população dos grandes centros urbanos mundo afora. A SM pode ser definida como um acometimento relacionado ao armazenamento e utilização energética no corpo de uma pessoa. Apesar de existirem diferentes formas de se definir, de maneira geral, para que se caracterize a SM, é necessário que o indivíduo apresente 3 das 5 condições seguintes: obesidade central (para fins práticos IMC > 30kg/m2), pressão arterial elevada (PA sistólica > 130 ou PA diastólica BP >85 mm Hg), glicose plasmática de jejum elevada (>100 mg/dL, ou previamente diagnosticada com DM2), alta taxa de triglicérides no sangue (> 150 mg/dL) e baixos níveis de HDL (lipoproteína de alta densidade – erradamente chamado de “colesterol bom”, uma vez que ele é apenas um transportador de colesterol dos tecidos periféricos de volta para o fígado: < 40 mg/dL em homens, < 50 mg/dL em mulheres). Inclusive, a resistência a insulina, podendo levar ao desenvolvimento de um quadro de DM do tipo 2, é uma das prováveis consequências da presença de SM em um indivíduo.

É nesse ponto que vale um “aviso legal” (ou “disclaimer”), nenhuma sugestão aqui apresentada substitui orientação profissional. Tratarei apenas de questões gerais sobre o tipo de dieta que tem sido adotada por nossa sociedade.

Seja por DM ou SM, a importância da questão alimentar tem provocado reação na mídia, na política, nos meios acadêmicos, etc. No entanto, basta uma conversa sobre alimentação, mesmo com pessoas que possuem acesso a boas fontes de informação, que se pode perceber que há muita dúvida sobre questões básicas sobre o que comemos.

A aparente falta de informação do público que, apesar de ter acesso e conseguir interpretar informação de qualidade, leva a afirmações do tipo:

  1. “Ah, caloria é caloria! Não importa se eu como 100 kcal de uma fruta fresca ou de refrigerante.”
  2. “Preciso emagrecer, por isso não tomo refrigerantes, só suco de caixinha.”
  3. “Preciso emagrecer, por isso estou indo dormir sem jantar.”
  4. “Preciso emagrecer, vou cortar ao máximo a gordura da dieta.”
  5. “Para emagrecer basta consumir as calorias que ingeri, por isso, é só me exercitar o suficiente.”
  6. “Não como carboidratos à noite, engordam.”

Dentre muitas outras falas do tipo, acredito que essas são as que representam algumas das coisas que já ouvi de pessoas que têm condições de buscar e interpretar informação de qualidade. Algumas dessas falas são provenientes de interpretações errôneas de declarações dadas por profissionais de saúde ou, até mesmo o que dizem equivocadamente alguns desses profissionais de saúde, especialmente os que não possuem formação adequada em nutrição, fisiologia ou bioquímica.

Observação: Aqui cabe a ressalva que, exceto casos muito particulares, o(a) nutricionista é o profissional que de fato pode fazer prescrição nutricional. Médicos de formação comum, não têm conhecimento para tal. Estes, só podem orientar de maneira geral, assim como faço nesse texto.

Voltando ao texto, de maneira bem simples vou mostrar que cada uma dessas frases tem erros conceituais básicos sobre alimentação.

  1. Caloria não é “tudo a mesma coisa". Por exemplo, caloria proveniente de frutose, participa de uma via bioquímica muito diferente da proveniente de glicose. Lembrando que a sacarose (açúcar comum ou de mesa) é um dissacarídeo composto por uma glicose e uma frutose. A glicose é essencial para nosso metabolismo, tanto que se você não a ingerir por alguns dias, seu corpo destrói seu próprio músculo, liberando proteína, para fabricá-la através de uma via metabólica específica. Refrigerantes têm por definição altas concentrações de frutose. Tendo sido ingerida, a frutose não induz o pâncreas a liberar insulina, uma vez que não precisa dela para entrar nas células do fígado e darem continuidade ao seu metabolismo. Dessa maneira, calorias provenientes de frutose (refrigerantes, xarope concentrado de milho e produtos industrializados em geral) não induzem o controle de saciedade mediado pela interação da insulina com a leptina, dessa forma, não bloqueando o apetite. A frutose também não inibe o hormônio da fome produzido pelo estômago, a grelina, deixando você no estado positivo para fome mesmo depois de consumi-la. Pois bem, uma fruta fresca também possui frutose, até por isso que essa molécula tem esse nome. No entanto, juntamente com a frutose, as frutas carregam fibras, estas, grosso modo, retardam a absorção do açúcar natural, diminuindo a ocorrência de “picos” concentração de insulina no sangue. Muita insulina em pouco tempo faz mal, torna seu corpo super apto a armazenar glicogênio e, quando o estimulo e o substrato são suficientes, você começa a fabricar e armazenar gordura (lipogênese). Ideal seria que os níveis insulínicos não subissem de maneira muito exacerbada após as refeições, isso pode ser conseguido com alimentos que possuam carboidratos que liberam glicose de maneira lenta no sangue. Nos itens seguintes explicarei como se pode ter uma noção de qual carboidrato induziria aumento repentino ou não na glicemia e na concentração de insulina. Por enquanto, como regra geral e prática, caloria vinda de um produto consumido diretamente da natureza é bem diferente e melhor do que uma caloria proveniente de um produto adoçado artificialmente. E é sobre esses produtos que chegamos a segunda afirmação.
  2. Sucos de caixinha, apesar de fazerem parte de comerciais em que famílias super felizes e saudáveis o tomam, escondem um segredo muito importante: apesar dos nomes dos ingredientes disfarçados na embalagem (existem inúmeros sinônimos que a indústria usa para esconder o real conteúdo de seus produtos), possuem elevadas quantidades de açúcar - esse mesmo açúcar do refrigerante, que chamarei de “açúcar ruim”. Portanto esses sucos deveriam ter o mesmo tipo de restrição de consumo que algumas pessoas impõem aos refrigerantes. Existem muitos produtos que aos olhos do consumidor são inofensivos (muitas vezes até considerados “saudáveis”), que possuem quantidades astronômicas do açúcar ruim e/ou sódio. Exemplos são fórmulas para bebês, temperos e molhos industrializados, bebidas esportivas, iogurtes, refrigerantes ditos “zero”, etc. Repetindo o que disse no item acima só que em outras palavras: se não vier direto da natureza, ou seja, se estiver numa embalagem, muito provavelmente terá níveis de açúcar ruim expressivos e, o que é pior, escondidos do consumidor através da embalagem que remete a uma situação natural e a nomes “fantasia” para o açúcar, aditivos, conservantes, etc.
  3. A diminuição da quantidade de refeições também pode levar a distúrbios no armazenamento de energia. Lembre-se, uma vez reabastecidos os estoques de glicogênio do nosso corpo após uma refeição (processo que ocorre relativamente rápido no período pós-prandial), estocamos energia na forma de gordura. Claro, nossos antepassados foram selecionados, evolutivamente falando, a sobreviverem ao período que vou chamar de “entre-caças”.  De maneira que, o aparato bioquímico das linhagens de humanos melhor adaptados à restrição calórica, fazia com que a energia na forma de gordura fosse estocada. Até porque a gordura é um ótimo meio de armazenar energia, um grama de gordura armazena mais que o dobro de calorias que um grama de proteínas ou carboidratos. Assim, nossos ancestrais melhores adaptados, sobreviveriam com poucas refeições, podendo atingir adequadamente a idade reprodutiva, procriando e passando essa informação nos genes dos seus descendentes. Acontece que a vida moderna e a indústria alimentícia nos oferece carboidratos, majoritariamente açúcares ruins, muito baratos a toda hora. Este fato “banaliza” (por falta de uma terminologia mais acadêmica) as vias de recompensa de maneira que, com a progressão da alimentação mal feita, apenas grandes quantidades de comida sensibilizarão os centros de recompensa no cérebro. É nessa hora que se instala o vício alimentar, e na cascata e ocorrências posteriores, possivelmente o indivíduo apresentará SM podendo progredir ou caminhar junto a uma DM.
  4. Por volta dos anos 70 alguns grupos médicos, por exemplo a American Heart Association, declararam guerra contra as gorduras, as saturadas em especial. De fato, uma alimentação com grandes taxas de gorduras saturadas pode provocar ganho de peso e alguns dos acometimentos crônicos da SM. No entanto, hoje já se sabe que o grande vilão da alimentação tem sido carboidratos ruins e em grande disponibilidade. Isso foi provado pelo aumento da incidência de doenças crônicas, ilustrada no caso da diabetes no gráfico 1, mesmo tendo-se diminuído em muito a ingestão de gorduras. É neste sentido que uma restrição drástica à gordura pode fazer com que a pessoa compense no consumo de carboidratos, especialmente os que ativam os centros de recompensa de maneira mais intensa, frutose em especial. Lembrando que o açúcar de mesa possui sacarose, dissacarídeo formado por uma glicose ligada a uma frutose.
  5. A afirmação 5 é uma das que muitos profissionais de saúde acabam erroneamente concordando. Parece que admitem válida a analogia de que a dieta humana seria como um balanço de empresas, em que se pode observar todo capital que entra e o que sai (calorias, no caso do corpo humano). Dessa forma, bastaria atuarmos na quantidade de caloria que entra e na que sai para termos uma vida saudável. No entanto, parte do argumento contra essa analogia já foi dada nos itens anteriores. Essa analogia, sublima a existência de diferentes tipos de caloria (releia item 1), bem como a existência de um controle do sistema nervoso mediado pelos centros de recompensa. Ou seja, há um controle hormonal muito bem orquestrado que observa e age segundo o tipo de alimento ingerido, levando em conta níveis de estresse, de consumo basal, de reparo tecidual, enfim tudo que entra, tem um sentido e função específicos e são tratados pelo nosso organismo de maneira distinta. Finalmente e novamente, nem toda caloria é igual! Talvez observar essas particularidades nos processos bioquímicos que regem o metabolismo humano dê às pessoas que até agora não tiveram sucesso na busca da boa saúde, chances de não perderem sua motivação, uma vez que se alimentar mal e de maneira descontrolada é um vício e deve ser tratado como tal. Eximindo, portanto, a culpa de quem luta contra a balança, e mais importante contra uma DM ou uma SM, e não têm obtido sucesso no seu caminho. Agora, também é importante dizer que sim, exercícios são plenamente recomendáveis e devem fazer parte de qualquer iniciativa de controle de peso e melhora do bem estar.  O que de positivo o exercício pode fazer: melhorar a sensibilidade muscular à insulina (ou seja, um dos tecidos do corpo que mais utilizam glicose fica mais ávido pelo nutriente); aumentar a massa muscular, aumentando assim o consumo basal de calorias, ou seja, mesmo quando está parado, um indivíduo que treina, consome mais calorias; diminui estresse, diminuindo também a quantidade de cortisol (hormônio adrenal que tem várias funções, dentre elas aumentar o apetite e o aumento da glicose sérica de jejum); aumenta a eficiência do ciclo do ácido cítrico, não dando “tempo” para o maquinário mitocondrial desviar para a produção de triglicérides por outras vias metabólicas; dentre muitos outros. O que tem de ficar claro é que uma alimentação descontrolada e de má qualidade não poderá ser compensada por exercícios, independente de sua intensidade. Por exemplo, uma pessoa que come um sanduíche com hambúrguer, queijo, molhos e etc, teria de ficar correndo por horas a fio (mais de 6hs) para gastar o que foi consumido em termos de quantidade de calorias, sem mencionar a qualidade delas.
  6. Carboidratos, mais especificamente glicose, devem ser consumidos sempre, uma vez que se tratam da fonte primordial de energia para os seres vivos. Caso se faça restrição de carboidratos, como já foi dito antes, o corpo trata de fabricar a partir de proteínas, gordura, enfim tudo que o corpo puder fazer ele o fará de maneira a manter a homeostase de glicose. Portanto, restringir carboidratos em geral não deve ser uma boa ideia. Melhor seria restringir carboidratos de má qualidade. Mas como saber na prática? Não existe um método único, mas uma maneira é se basear em um fator chamado Índice Glicêmico (IG), sendo a glicose pura o valor 100 nessa escala, os carboidratos são então classificados segundo a quantidade de glicose que 1 grama do carboidrato ingerido aumenta do nível de glicose no sangue. A regra é a seguinte: IG alto é sinônimo de aumento de glicose sérica muito abrupta, fazendo com que o corpo se esforce muito em manter níveis aceitáveis de glicemia. Entretanto, o IG possui algumas limitações, como não dizer de fato a quantidade de carboidrato que um alimento tem, e sim apenas uma relação de quantidade relativa de liberação de glicose no sangue por grama de alimento. Para contornar essa situação, criou-se também um outro fator chamado Carga Glicêmica (CG), este número dá uma ideia da quantidade de carboidrato que um alimento possui. É uma combinação entre o IG e a quantidade que uma porção do alimento tem de carboidrato disponível. Por exemplo, uma melancia tem um alto IG (o que é ruim), porém compensa em ter pouca disponibilidade de carboidrato por porção, gerando um baixo CG, sendo portanto saudável (além de oferecer micronutrientes muito importantes para saúde). Agora, e se o alimento contiver proteínas e gorduras, ou se não induzir diretamente aumento de glicose no sangue (por exemplo frutose) como avaliar a “qualidade” dela? É pra isso que se desenvolveu o Índice Insulínico, ele se baseia na resposta insulínica a vários tipos de alimentos. Assim uma refeição com alta carga proteica, por exemplo, pode ser avaliada qualitativamente pelo índice, uma vez que ele mede a resposta do organismo em quantidade de insulina liberada depois do indivíduo alimentar-se com determinada proteína. Todos estes índices são imperfeitos e difíceis de serem aplicados na prática, por isso, não colocarei aqui tabelas com esses valores. Uma busca simples na internet pode fornecer tabelas tão completas quanto queiram (nos links sobre os índices tem algumas), de maneira que a dica que deve ficar é: se para se alimentar você está tendo de ler rótulos, saiba que está ingerindo porcaria!
Como vocês que aguentaram até aqui puderam observar, muitas das frases que ouvimos por aí contém imprecisões conceituais fundamentais sobre fisiologia e bioquímica. Repito, apenas o nutricionista tem condições de orientar dieta. No entanto, nossa sociedade sabidamente tem lidado com problemas complexos de forma um tanto imediatista, fazendo com que de verão em verão, os próprios profissionais responsáveis por orientar a dieta, se rendam a soluções milagrosas muitas vezes tratadas como panaceias. Por isso cuidado também com o profissional de escolha para a orientação e a tomada das decisões sobre sua saúde.
Espero que tenham tirado proveito do que foi escrito e que tragam mais dúvidas e sugestões para próximas postagens.

"Este texto de divulgação foi escrito por Ícaro Salerno Fernandes, bacharel em Física e estudante de medicina, e publicado neste blog em abril de 2014 (atualizado em janeiro de 2016). Copiar ou reproduzir parte ou o todo do texto sem citar a fonte original constitui plágio e pode ser punido por lei".